Apontamento 

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso. 

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim. 

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio? 

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles. 

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária. 

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.

Álvaro de Campos

O outro dia!!

Ao retornar a minha consciência e ver aquele ser se equilibrando em minha cadeira reconfortado como se fosse uma ave em um puleiro, dei um sobre-salto imaginando o que estava acontecendo, se  ainda estava adormecido, e que diabos de pesadelo era aquele que não tinha fim.

Acho que notando minha confusão mental a figura adiantou-se em um pulo caindo de pé com estrema graça e atitude na frente da poltrona, vindo ao meu encontro repousou sua mão direita sobre meu ombro e me disse:

- Tenha calma, tudo irá se esclarecer, sempre que há o despertar as coisas se tornam confusas mas muito tenho eu que lhe contar, e colocar a par da situação que sua vida agora toma.

Ainda confuso e cansado sai de encontro retirando a mão do estranho sujeito vestindo uma roupa preta de minha frente e me deixei afundar na poltrona, que outrora era um puleiro para o desconhecido. Sentindo meus ombros pesarem demasiadamente sobre meu corpo não conseguia resistir a tentação de fechar os olhos e por mais uma vez adormeci. Acordei depois, sem saber por quanto tempo havia passado dormindo, e agora respirava profundamente, desejando que tudo aquilo tivesse sido alucinação, mas eram vãos meus pensamentos, quando me deparei com o sujeito estranho ainda ali, agora mais comportado apenas sentado sobre a minha escrivaninha. Ele voltou a mim e novamente disse-me:

- Mantenha-se acordado Khaliel, o momento não é para derrotismos, preciso te situar sobre a sua verdadeira natureza, e assim você entenderá um pouco. Há muito o que aprender, contudo temos que ser rápidos, pois a humanidade nos é necessária assim como somos necessários a ela. Serei direto, você, e eu também consequentemente, não somos homens, mortais, humanos como dizem. Somos mestiços, meio-demonios ou meio-anjos, faça você a sua escolha de nomenclatura, pois o que a maioria desconhece na realidade, é que o que define você não são poderes ou características, que na realidade são iguais, mas sim a sua intenção e o seu caráter. Somos abençoados com graças, e através delas podemos fazer coisas que os humanos normalmente não podem. Então atenção, pois a partir de hoje estou aqui para te recrutar para os Guardiões.

Minha cabeça ainda girava, e eu indaguei:

- Perdão! Mas nada disso faz sentido! Guardiões, Meio-Demônios, Anjos ou seja lá o que for. Mas por que eu? O que é isso?

- Sinto dizer mas é uma resposta que não tenho. Talvez um plano maior, mas isso ninguém sabe. O que posso te dizer é que há uma guerra sendo travada nas sombras, a milênios, e nós somos os protetores da inocência da humanidade. Ou melhor exterminamos os elementos malignos ou danosos entendeu? – Respondeu-me a figura.

- Você vai me desculpar, mas acho que está me confundindo, sou apenas mais um trabalhador, a única coisa que tenho de especial é saber destravar programas de computador, nada demais hoje em dia com as ferramentas certas. – Disse tentando me situar.

- Você não percebe? Você estava como em um casulo, uma pupa, preparando seu verdadeiro poder para vira  tona, e agora ele está ai dentro de você. Diga que você não sente algo diferente em seu interior e eu irei embora.

Mas não podia dizer aquilo, pois sentia uma força descomunal dentro de mim, algo próximo ao que deduzia um super-herói sentir.

- Vejo que não consegue negar o que sente Khaliel. – Continuou a figura. – A força agora se mostra presente em você, essa energia que sente é a energia do universo, a energia que os homens dizem ser CELESTIAL. Contudo, como antes, são nomenclaturas, pois os seres malignos ou demônios como os humanos chamam, também possuem essa força. O que nos difere é o que fazemos com ela.

- Perdão mais uma vez, mas por que me chama de Khaliel, meu nome é Juan!

- Ora!! Esse era seu nome mortal, mas seu nome real no mundo de Arcádia e Khaliel! Assim foi escrito no dia de seu nascimento.

- Estou vendo que estou enlouquecendo.

- Não está não. Sei que é chocante logo de inicio, mas você irá se acostumar, por exemplo, veja o que é possível fazer.

E com um salto a figura se projetou para a parede subindo-a como se andasse sobre o chão, e chegando ao teto ficou de ponta cabeça olhando para mim.

- Você acha que um humano poderia fazer isso?

- Creio que não. Mas eu também não posso! – Conclui.

- Ainda não, mas com o preparo certo você fará, isso e muito mais! Esse é meu objetivo – Continuou dizendo a figura – Me chamo Samael, como nos escritos, mas não sou um demônio e sim seu instrutor.

O mundo mais uma vez girava, e a única pergunta que tinha em mente era : “SERÁ QUE ESTOU SONHANDO?”.


Diário

Minha cidade está cercada, por todos os lados vejo flechas e espadas apontadas para nossa cidade, é só uma questão de tempo e eles começarão a agir. Não tenho como dete-los, são muitos, e as guerras de longos anos entre nós homens, nos enfraqueceram. Não há o que fazer, apenas fugir. É isso que é feito, através de uma rota de fuga subterrânea, envio todos da cidade para os portos onde embarcações estão aguardando para singrarem o mar em busca de um outro lugar.

Olho tudo em minha volta, e me desespero com a visão que toma conta de mim, alguns poucos soldados ainda estão comigo, contudo nem se a bravura deles fosse infinita poderíamos deter a horda que nos cerca a esse momento. Ironicamente essa horda de selvagens fizeram algo que nós humanos, que nos gabamos de nossa civilidade nunca fizemos, unificamos nossos povos sobre um só ideal.

Está tudo terminado, posso ouvir o rufar dos tambores, eles estão prontos, no horizonte da noite mais negra de toda nossa era posso ver aqueles seres repugnantes marchando em direção a muralha de nossa cidade. Ela agüentará tempo suficiente para que tenhamos fugido aos portos em segurança. Quando deixo a sala do trono, vejo as tapeçarias e as historias de meus ancestrais ali retratadas, e sinto um vazio tremendo e uma imensa decepção por não conseguir fazer o mesmo que meus antepassados. Agora fujo acuado como um coelho da raposa. E meu destino é mais incerto do que antes, pelo menos ainda temos uma esperança.

...

Navegamos durante muitos meses, nada se podia ver a não ser água e mais água, a comida já estava ficando escassa, e a tripulação não agüentava mais conter as brigas pela água que era rara e também por pendências que não foram apagadas quando deixamos o continente. Estava percebendo que realmente aquele era nosso destino, sumir da face da terra, pois não sabíamos viver em comunhão e harmonia. Então era isso que iria acontecer. Orei para os deuses nos abençoarem e terem piedade das almas boas que ainda estavam nos barcos, e foi então que ouvi da torre de vigia algo que soava como cânticos de anjos: “TERRA”.

Aportamos em um local com muitas florestas e matas, um local bem adequado para a situação que se irrompia, a maioria permanecia nos barcos enquanto uma equipe de reconhecimento foi mandada ao continente para verificar a situação e a segurança daquelas terras. Ele andaram e depois de cinco dias retornaram relatando que viram floresta, matas e planícies, animais para caça e criação, mas nada de seres inteligentes ou próximos disso nas redondezas, decidimos aportar, e estabelecemos acampamento. Muitos ainda recebiam a noticia com estranheza e permaneciam embarcados, enviei mais duas tropas para encontrar um local bom para construir um vilarejo, e eles retornaram dois meses depois dizendo que a leste havia um local seguro de invasões pelo mar e protegido por montanhas, e que era um local ideal de planice e com florestas por perto o que garantiria madeira e alimento suficiente, alem de ser próximo de um rio que poderíamos utilizar para abastecer a cidade com água.

Começava ali então, um novo destino para nossa civilização, um novo começo. Apesar de não termos merecido.!

Rei Otzar. Ano I D.E. (Depois do Êxodo) 




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