Súbita, uma angústia...
Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma!
Que amigos que tenho tido!
Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido!
Que esterco metafísico os meus prpósitos todos!
Uma angústia,
Uma desconsolação da epiderme da alma,
Um deixar cair os braços ao sol-pôr do esforço...
Renego.
Renego tudo.
Renego mais do que tudo.
Renego a gládio e fim todos os Deuses e a negação deles.
Mas o que é que me falta, que o sinto faltar-me no estômago e na
circulação do sangue?
Que atordoamento vazio me esfalfa no cérebro?
Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me?
Não: vou existir. Arre! Vou existir.
E-xis-tir...
E--xis--tir ...
Meu Deus! Que budismo me esfria no sangue!
Renunciar de portas todas abertas,
Perante a paisagem todas as paisagens,
Sem esperança, em liberdade,
Sem nexo,
Acidente da inconseqüência da superfície das coisas,
Monótono mas dorminhoco,
E que brisas quando as portas e as janelas estão todas abertas!
Que verão agradável dos outros!
Dêem-me de beber, que não tenho sede!
Álvaro de Campos
Nunca soube de alguém derrotado
Nunca ouvi ninguém dizer que perdeu
Todo mundo só se dá bem na vida
O único babaca sincero sou eu
Eu sou a escória dos vivos
Eu sou a raspa dos tachos
Eu sou o terror dos passivos
Eu sou a vergonha dos machos
O comandante supremo do exército dos derrotados
Por isso tome cuidado
Nunca soube de alguém enganado
Nunca ouvi ninguém dizer que doeu
Todo mundo só faz coisas perfeitas
O único errado atrasado sou eu
Eu sou a escória dos vivos
Eu sou a raspa dos tachos
Eu sou o terror dos passivos
Eu sou a vergonha dos machos
O comandante supremo do exército dos derrotados
Por isso tome cuidado
Tenho raiva destes falsos heróis
Que não conhecem o gosto da lona
Que estão em casa folheando jornais
Entrincheirados dentro da poltrona
O comandante supremo do exército dos derrotados
Por isso tome cuidado
Eu posso estar ao seu lado
Fernando Pessoa
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