Acaso

No acaso da rua o acaso da rapariga loira. 
Mas não, não é aquela. 

A outra era noutra rua, noutra cidade, e eu era outro. 

Perco-me subitamente da visão imediata, 
Estou outra vez na outra cidade, na outra rua, 
E a outra rapariga passa. 

Que grande vantagem o recordar intransigentemente! 
Agora tenho pena de nunca mais ter visto a outra rapariga, 
E tenho pena de afinal nem sequer ter olhado para esta. 

Que grande vantagem trazer a alma virada do avesso! 
Ao menos escrevem-se versos. 
Escrevem-se versos, passa-se por doido, e depois por gênio, se calhar, 
Se calhar, ou até sem calhar, 
Maravilha das celebridades! 

Ia eu dizendo que ao menos escrevem-se versos... 
Mas isto era a respeito de uma rapariga, 
De uma rapariga loira, 
Mas qual delas? 
Havia uma que vi há muito tempo numa outra cidade, 
Numa outra espécie de rua; 
E houve esta que vi há muito tempo numa outra cidade 
Numa outra espécie de rua; 
Por que todas as recordações são a mesma recordação, 
Tudo que foi é a mesma morte, 
Ontem, hoje, quem sabe se até amanhã? 

Um transeunte olha para mim com uma estranheza ocasional. 
Estaria eu a fazer versos em gestos e caretas? 
Pode ser... A rapariga loira? 
É a mesma afinal... 
Tudo é o mesmo afinal ... 

Só eu, de qualquer modo, não sou o mesmo, e isto é o mesmo também afinal.

(Álvaro de Campos)

Adiamento

   Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã... 
   Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã, 
   E assim será possível; mas hoje não... 
   Não, hoje nada; hoje não posso. 
   A persistência confusa da minha subjetividade objetiva, 
   O sono da minha vida real, intercalado, 
   O cansaço antecipado e infinito, 
   Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico... 
   Esta espécie de alma... 
   Só depois de amanhã... 
   Hoje quero preparar-me, 
   Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte... 
   Ele é que é decisivo. 
   Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos... 
   Amanhã é o dia dos planos. 
   Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo; 
   Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã... 
   Tenho vontade de chorar, 
   Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro... 
 
   Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo. 
   Só depois de amanhã... 
   Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana. 
   Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância... 
   Depois de amanhã serei outro, 
   A minha vida triunfar-se-á, 
   Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático 
   Serão convocadas por um edital... 
   Mas por um edital de amanhã... 
   Hoje quero dormir, redigirei amanhã... 
   Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância? 
   Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã, 
   Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo... 
   Antes, não... 
   Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. 
   Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser. 
   Só depois de amanhã... 
   Tenho sono como o frio de um cão vadio. 
   Tenho muito sono. 
   Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã... 
   Sim, talvez só depois de amanhã... 
 
   O porvir... 
   Sim, o porvir...

(Álvaro de Campos)




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