Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
Fernando Pessoa
A pena teima em correr o papel,
desenhando símbolos incondizentes,
palavras que não conheço o sentido,
momentos para descrentes carentes.
O papel teima em guardá-las,
Tristes, engavetadas, corridas, borradas,
Motivadas em linhas e linhas,
empilhadas em um caderno vazio.
O caderno teima em proteger,
muitas folhas vazias para preencher,
aquelas já preenchidas e esquecidas,
viradas, abandonadas, lá atrás.
A gaveta há de guardar,
deixar no canto, encostar, esquecer,
trancar a chave, esquecer,
jogar a chave fora, morrer.
DR.
Caio, precipício abaixo,
Em meio a brumas que me envolvem,
A procura de respostas,
Cujas perguntas fogem de minha mente.
Eleva o pensamento,
Em busca de sentimentos,
Enterrados sobre os escombros,
Do corpo que carregamos.
Adia o tardar de algo,
Que meramente e ao acaso,
Cria algum caso,
Para sucumbir a essa razão.
Há de ter um sentido,
Morte, vida, motivo,
De alegrar ou entristecer,
Mesmo a mentira em tuas mãos.
DR.
Correm os rios em busca dos oceanos,
Eu correndo em busca de esperanças,
Meras lágrimas que desejam direção,
Em subterrâneos de uma alma perdida.
Encontras refugio nas pedras lodosas,
Cantos escuros e cavernas melancólicas,
Esse é o reflexo do que tenho em mim,
No mais escuro e tenebroso caos.
Por mais que queira algo imensamente,
Nem sempre de ti depende, muito mais,
Intensamente, dependes da vida que se tem.
Da vontade de não querer ter nada.
Abra-te em um sonho, veja-te em pesadelos,
Escondidos e dispostos em lugares,
que jamais vistos serão ao relento.
Clame a todos os deuses, divindades ou seres,
Nada irá lhe ajudar senão você mesmo,
Mesmo que a ajuda seja,
Esquecimento.
DR.
Sempre um tolo,
Tolo aparentemente um tolo,
totalmente tolo
por acreditar assim.
Fingir não crer,
não enxergar pra que?
Se tudo é verdade,
do que eu me escondo?
Novamente,
indiscreto meu pensar,
até onde chegar,
tolo, como sou tolo.
DR.
A chama ainda queima,
e minha alma vagueia,
pelos cantos escuros,
procurando essa luz.
Esbarrando em rochas,
transformando-me em pó,
procurando encontrar,
algo que me conduza.
O sangue é areia,
O coração já não bombeia,
a vitalidade pra minha mente,
essa mente tonteia.
Agarro-me em idéias,
sonhos e pesadelos,
misturados e diluídos,
em lágrimas derradeiras.
Perguntas e repostas,
uma sem a outra se mostram,
ao vagar pelo mundo lá fora,
sem coinciderem a minha questão.
Até quando é a razão,
que demanda a emoção,
de deixar tudo pra trás,
e dar nova oportunidade a vida.
A coragem que me falta,
ou me sobra em casos,
agora me abandona em detrimento,
de um mal resolvido ato.
Objetividade sem foco,
Tato maltratado pelo vento,
que serpenteia e corta,
meu rosto e minha alma.
Algoz de mim mesmo,
vou procurando e vencendo,
aquele que não tem merecimento,
e me encontro derrotado.
Sangrando, enciumado de mim,
fracassado sem chance de ter,
o que ao menos almeijo um dia,
alcançar e ver.
Luz, essa luz...
De onde vêm,
és tu?
Me deixa, me deixa, nas sombras,
de que minh'alma é feita.
DR
A noite me envolve em seu abraço gélido,
E as histórias povoam minha mente fluente,
Querendo ou não querendo elas se mostram
como pinturas em uma grande tela invisível.
Torturas e dores, tristezas e pesares,
pois é tudo que se passa ao estar
longe do objetivo desejado.
Querendo mudar a gravura,
para um dia ensolarada em uma colina verdejante,
quero mesmo mostrar-me distante de tudo,
mas não consigo nem ao menos deixar de pensar.
O porquê não dá?
Até onde quer chegar?
Em um momento aqui está
e no outro, sumiste, fugiste.
Vou me deixar levar por essas ondas imaginárias,
desse frio que me envolve,
dessa ácidez que me determina a vida,
desse não esgotar de sofrimento.
DR
Em tudo que se pode prever,
não como como determinar,
queria eu ser as ondas do mar
para sempre em você poder me aquecer.
Não há o que deixar,
as coisas ficam tão inócuas com o tempo,
e tudo que se deseja é o alento
de um abraço e um beijo perfeito.
Quantas idealizações de um não viver,
aonde quer mesmo estar, e não quero ser,
o que tudo pode tornar a acontecer,
não não, agora tudo pode diferente acontecer.
Até que momento posso me considerar,
doente, acamado?
Pela vida tenho andado,
até quando não poderei descansar?
Veja as belas flores que nascem na varanda,
são plantadas com muitas razões,
mas são regadas a lágrimas,
e adubadas a emoções.
Vida perene, que não se enquadra no mundo,
fora de eixo e tão morimbundo,
hoje me encontro procurando razões,
que razões há para uma mente perturbada?
Haja motivos, haja verdades,
todas mentiras são mais doces,
eu não saberia dizer o que vai acontecer,
mas gostaria de fazer acontecer.
Mesmo que tudo possa não acarretar em nada,
a estrada pungente da vida é certa,
se há de ser trilhada,
por que não pode ser encarada como algo belo em si?
Pelos relógios das praças e igrejas,
vejo o tempo marcado, minuto a minuto,
mas o que desejo são os instantes infinitos,
de uma união sincera e profunda.
E mesmo que por todas sombras da vida,
por todos os becos escuros,
eu caminhar, sei que há aqui comigo,
sempre e para sempre aprisionado: Seu olhar!.
DR
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